ANOMIA INCORRIGÍVEL

Prof. Marcos Coimbra

Conselheiro Diretor do CEBRES, Titular da Academia Brasileira de Defesa, da Academia Nacional de Economia e Autor do livro Brasil Soberano.

(Artigo de 10.02.11 para o MM).

         Poucas vezes na história de um país, tivemos, como agora no Brasil, um predomínio tão avassalador da mediocridade. E o fenômeno espalha-se por todos os setores da sociedade brasileira. E não existe uma reação a altura das forças vivas da Nação.

         Não há setor invulnerável. Todos são atingidos, em menor ou maior proporção, pela epidemia avassaladora. A premissa básica de um regime democrático consiste justamente no respeito à harmonia, autonomia e independência dos três poderes da República, o Executivo, o Judiciário e o Legislativo. E é exatamente o que inexiste no Brasil hodierno.

         Como admitir um Executivo que interfere ostensivamente nos demais poderes? No Judiciário através da indicação dos membros das mais altas cortes do país. Na administração petista, foram nomeados, pelo antigo presidente, mais da metade dos ministros do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e mais de 2/3 dos integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF). Um deles com a principal credencial de ter sido advogado do partido. Recentemente, a atual presidente nomeou mais um. O Legislativo apenas aprova, sem tergiversar, as ordens recebidas.

         Outro absurdo é flagrar a indecente disputa pela nomeação de cargos de todos os escalões do Executivo por parte de membros do Legislativo. É patética a briga entre os partidos da base aliada pelo botim. Não possuem sequer vergonha na cara. Como pressupor a isenção dos comandos dos partidos políticos no cumprimento de suas respectivas funções constitucionais, se vivem a mendigar a nomeação de seus apadrinhados para cargos importantes, dotados do poder de nomear centenas de acólitos para cargos comissionados e com capacidade para decidir sobre dezenas de licitações de valores astronômicos. Caso não votem de acordo com as ordens emanadas do planalto, seus indicados serão decapitados, com as conseqüências lógicas de ameaça à reeleição da maioria de nossos bravos congressistas. É um espetáculo  de pornografia explícita.

         E em países mais democráticos, como os EUA, países europeus etc., é comum haver um presidente de um partido, convivendo com uma maioria oposicionista em uma das casas do Congresso, ou até mesmo nas duas. Esta é a essência da Democracia. Cada decisão importante deverá ser negociada passo a passo, em função dos superiores interesses nacionais e não por causa da nomeação do presidente de uma estatal.

O recente episódio de Furnas é extremamente lamentável e, ao mesmo tempo, pedagógico. Como uma democracia madura pode admitir impassível a disputa desavergonhada entre caciques dos principais partidos da base governista, o PMDB e o PT, pela primazia de nomear o presidente da importante estatal, com direito a ameaças de divulgação de denúncias graves e de “dossiês” explosivos contra os oponentes? É evidente que os dois lados estão corretos em suas acusações, e, assim, todos deveriam ser punidos e não um deles agraciado com o primeiro prêmio. Todos estão errados. E os “apagões” que, de acordo com as promessas eleitorais feitas, jamais aconteceriam, voltam a incidir com peso total. Ontem, Nordeste. Hoje, São Paulo. Amanhã, em outra região, e o ministro (ir)responsável afirmará que ocorreu apenas uma interrupção no fornecimento da energia.

O povo, inebriado pelo pão e circo, suporta tudo, sem protesto. Não há mais lideranças. As Instituições Nacionais vão sendo cooptadas uma a uma. Quase todos têm um preço. Passa a ser uma questão de atender ao que é solicitado, seja na área financeira, ou em outra qualquer. A omissão, a covardia, a cumplicidade, a leniência imperam. Inexiste oposição. Caso houvesse, com um mínimo de competência, o Brasil teria pelo menos o contraditório e a possibilidade de uma alternativa com propostas diferentes. O PT, caso fosse oposição neste momento, já teria levado não só esta administração como a anterior a nocaute. Por que ela não age? Afinal, a presidente atual foi eleita sem aprovação da maioria dos eleitores existentes, considerando-se as abstenções, votos brancos, nulos e no candidato derrotado no segundo turno.

A infra-estrutura econômico-social padece de graves carências, em especial nos importantes segmentos da saúde, da educação, da segurança e dos transportes. A desculpa das autoridades é a falta de recursos para prover a estas necessidades coletivas. Porém os há em abundância para obras faraônicas, a serem realizadas em função da Copa de 14 e das Olimpíadas de 16, sem o devido aproveitamento pela sociedade brasileira, a exemplo do PAN. É a alegria das empreiteiras e dos políticos no poder.

Como sonhar em ser a 5ª economia do mundo com o baixo nível de qualidade da nossa força de trabalho, em todos os níveis? Com a falta de seriedade com a coisa pública? Com a inexistência de um Projeto Nacional de Desenvolvimento? Com o grau de corrupção predominante em praticamente todos os setores da sociedade? Com o nó logístico? Com o péssimo exemplo transmitido pelas nossas “autoridades” e pelos meios de comunicação, interessados apenas em audiência e lucro, inteiramente descompromissados com os princípios morais e éticos de nossa civilização judaico-cristã?

         Infelizmente, não temos a solução para esta problemática apresentada, mas julgamos ser nosso dever expor nossa opinião sobre esta anomia reinante. Nosso objetivo é  buscar a correção dos graves erros existentes, com o auxílio de todos aqueles insatisfeitos, como nós, com este estado de coisas e que ainda são possuidores de amor à Pátria, realmente comprometidos com os valores de nossos antepassados e com o bem estar de nossos descendentes. Nosso Brasil não merece este triste e melancólico destino. Vamos combater o bom combate, enquanto ainda é tempo. Os exemplos provenientes do Oriente Médio são contundentes.

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